"Não era uma menina com um livro:
era uma mulher com seu amante"
"Era um livro grosso, meu Deus,
era um livro pra se ficar vivendo com ele,
comendo-o, dormindo-o"
"'E você fica com o livro por quanto tempo quiser'.
Entendem? Valia mais do que me dar o livro:
'pelo tempo que eu quisesse' é tudo que uma pessoa,
grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer."
Clarice Lispector - Felicidade Clandestina
Liesel, personagem de Markus Zusak, roubava livros. Quaisquer que fossem os livros, em situações perigosas, em uma época perigosa. Li o livro no início da minha adolescência, e me encantava ao ler a paixão da menina - me encantava ao sentir a paixão da menina...
Acredito que, se uma pessoa tem uma boa relação com a literatura, estudar o assunto - especialmente à luz da Psicologia - fará com que ela pense em sua história com livros, à sua construção de vida permeada por esses objetos cheios de significados - carregados de subjetividade.
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| Meu primeiro vício literário |
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| Por mais bobo que possa parecer, leio até hoje |
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| O autor disse que eu inspirei essa história |
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| Curioso como os que mais me marcaram foram os livros da adolescência |
Concordo com Goulart (2012) em seu artigo "Com nos constinuímos leitores? Um estudo sobre o livro e as experiências de leitura" quando ela diz do envolvimento afetivo do leitor com o livro, mas não me convenço que essa afetividade está necessariamente atrelada ao objeto. O objeto é importante, mas não seria a história também um objeto?
A autora afirma: "Nessa relação entre o leitor e a leitura, o impresso ganha um papel exclusivo, por ele se cultiva uma intensa ligação marcada pela interação fisico-afetiva e pelas emoções que surgem dessa relação." (p.29).
Por minha experiência com a literatura eu poderia dizer que ter o livro é bom, a sensação de possuí-o é deliciosa (como descreve bem a menina do conto de Lispector), mas me importa mais seu conteúdo, ou simplesmente sua existência.
Quando quem escreve (ou seria quem lê?) consegue ir além da palavra (do simbólico), consegue alcançar o real, acho que é aí que o (a) leitor (a) se encontra com o livro. É quando, por mais que existam as palavras, não são estas que intermedeiam a narrativa. Vive-se o livro.
"Quanto maior a naturalidade com que o narrador renuncia às sutilezas psicológicas, mais facilmente a história se gravará na memória do ouvinte, mais completamente ela se assimilará na sua própria experiência e mais irresistivelmente ele cederá à inclinação de recontá-la um dia. Esse processo de assimilação se dá em camadas muito profundas e exige um estado cada vez mais raro." (BENJAMIN apud GOULART, 2012, p. 34 e 35)
Continuamente me pergunto qual é esse estado exigido e porque ele está "cada vez mais raro". Seria uma característica da personalidade? Uma construção social/subjetiva? Me falta teoria para responder a essas perguntas.
O seminário me proporcionou reações e reflexões emocionais/afetivas, mais do que intelectuais. O ambiente criado foi perfeito para o tema. Foi interessante ouvir sobre os modos de manuseio e manutenção que as pessoas adotam em relação aos livros, e como cada pessoa tem histórias com a literatura. Ela influencia as vidas de quem se conecta com ela, sem dúvida.
Achei curiosa a associação que algumas pessoas fazem entre a leitura e o cansaçõ (na verdade, da falta de vontade de ler ao cansaço). Não sei se é por se tratar de um esforço ou porque a leitura nos enche de conteúdo. Fiquei me perguntando.
Os apontamentos e o vídeo sobre o uso da literatura como instrumento da Psicologia que possibilita intervenção, auxílio em tratamento, ensino, etc, permitiram uma reflexão sobre o lugar da literatura na vida das pessoas e sua influência na vivência de cada um, como foi ressaltado no seminário em relação aos processos de subjetividade.
Foi interessante que, durante o seminário, não ficamos presos à ideia do livro físico, especialmente quando se fala das utilidades da literatura na Psicologia.