terça-feira, 24 de novembro de 2015

A prática em Psicologia no contexto hospitalar

"A saúde não se faz somente com médico"
 
Recebemos o profissional Eder Luiz Nogueira, graduado em Psicologia e mestre em Psicologia Social, para nos apresentar a prática de Psicologia no contexto hospitalar, com a qual ele tem trabalhado no Hospital Odilon Behrens desde 2007.
Ele inicia levantando questões como a importância de qualificar o cuidador, como a doença não pode acabar com o vínculo familiar e a importância do trabalho em equipe nesse contexto. Destaca a necessidade de um planejamento mais amplo em relação à política de pessoal - diferente de RH - na saúde pública e que isso tem resultados, impactos na saúde do trabalhador.
Nos mostrou seu livro, que apresenta os bastidores do Hospital Odilon Behrens. Ele relata que só foi possível a existência do livro a partir da prática, e enfatiza que os casos apresentados não são "receitas de como fazer", mas ilustrações de um modo de fazer que nos permite ter parâmetros de agir, ainda que seja modificado, reestruturado e adaptado para cada situação. Ele fala do acidente no viaduto como situação de urgência, o que podemos tomar como exemplo de prática específica, que exige flexibilidade do profissional para lidar.
A atuação do psicólogo nesse contexto se dá no fortalecimento da participação dos demais profissionais, das famílias e do paciente, da articulação e do diálogo da população com a instituição (de forma a proporcionar essa conversação a partir da questão municipal).
A psicologia tem se apresentado mais próxima às atividades hospitalares, tem-se reconhecido o papel do psicólogo em diversas áreas do hospital, mas ainda há bastante desconhecimento em relação a esse papel, sendo o psicólogo muitas vezes visto como "fornecedor de conselhos". Em seu livro, Eder menciona a lacuna na formação do profissional de psicologia para o exercício na área da saúde, especialmente em relação ao SUS.
Ele relata que as gerências das UPAs têm estado mais seguras em relação à subjetividade, no sentido em que não há como se negar o sujeito, e então aparece a demanda compreendendo a necessidade da inserção do profissional psi. Eder cita questões que pedem a presença da psicologia, como "porque tantos retornos?" e "porque a superlotação?"
A Luciana pediu que ele falasse sobre a residência multiprofissional, que tem sido instituída nos hospitais e possibilita a vivência de outros profissionais (e não apenas de medicina) no ambiente hospitalar. Ele explica que o residente tem 80% de prática profissional e 20% de teoria, e tem a oportunidade de pensar o hospital como uma instituição pública de saúde, repensando a questão da saúde tendo como ponto de vista o hospital. Assim, pode-se partir da realidade, e talvez seja uma forma de preencher a lacuna de formação que o autor cita.
Eder ressalta a importância da psicologia social em sua atuação, especialmente na função que lhe é atribuída, de "traduzir" o paciente para os demais profissionais, de entender o caso. Ele exemplifica citando os episódios em que às vezes os demais profissionais acabam tratando mal um paciente para que ele "libere o leito" , e nesse momento a psicologia entra para trabalhar essa realidade, mediar, sensibilizar. Eder também nos chama a refletir sobre um desafio: elaborar um modo de fazer saúde junto com a população. Ele traz a problemática dos profissionais na área da saúde e a porcentagem de readaptações destes, o que revela tanto a dificuldade do trabalho quanto a falta de preparação dos profissionais para esse tipo de atuação.

Setting terapêutico

​A proposta deste seminário surgiu a partir das discussões feitas no seminário sobre atendimento psicológico online, no qual ficou a questão de como se daria o setting terapêutico online, e se ele funcionaria. 
Como já dito no post sobre o seminário mencionado, a
pontamos que a ética do profissional deve ser a mesma tanto no consultório físico quanto nos atendimentos online, que o contrato entre o profissional e o cliente deve ser estabelecido independentemente da modalidade de atendimento e que este deverá conter as características do atendimento, inclusive do setting.​

Durante este seminário, destacou-se que o setting vai além das regras normatizadoras, fazendo menção à Lacan, que combate a padronização das normas, destacando como mais importante o manejo do terapeuta. Ele afirma que a garantia do sucesso terapêutico não está no setting, mas nessa administração do terapeuta.
Entretanto, o grupo aborda a questão de que quando o setting é alterado, haverá também alterações no fluxo do tratamento. Essa alteração parece realmente acontecer, mas então surge a pergunta-reflexão: onde está o setting terapêutico? É um lugar físico? É apenas permeado por questões físicas? Porque, pensando dessa forma, voltamos a Lacan e à importância do manejo do terapeuta.
A professora Luciana Kind apresenta um exemplo prático de administração do lugar físico para que o setting se faça adequado à terapia. Ela conta que dividia a sala de atendimento com uma colega que utilizava o divã e, assim, mesmo que ela não o usasse, o ambiente físico possuía um divã. Os atendimentos puderam acontecer de forma satisfatória e seu cliente sabia como funcionava a terapia, sentando-se sempre na poltrona à sua frente. Certa vez, porém, o paciente perguntou porque eles não utilizavam o divã, ao que ela respondeu que, se ele desejasse, poderia se deitar ali. Ele se deitou e, como a terapia não incluía aquilo, a Luciana se manteve em silêncio. Ele se levantou, sentou-se na poltrona e eles continuaram os atendimentos normalmente. Foi possível que o paciente compreendesse o lugar de sua terapia, sem que isso atrapalhasse o processo.

Discutimos sobre a invasão das novas formas de comunicação no setting, fazendo uma reflexão - como lidar e criar normas de utilização dos aparelhos eletrônicos na terapia?
Moreira e Esteves (2012) concluem que "mais importante do que o espaço físico do setting é o que chamaremos de 'espaço mental do setting', é poder manter os papéis, as regras, a ética em qualquer lugar, sem depender do ambiente físico", respondendo aos nossos questionamentos sobre o lugar do setting terapêutico.

Hipnoterapia de Sofia Bauer

Dra. Sofia Bouer, médica formada pela UFMG em 1983,
Especialista em Psiquiatria, membro da ABP. 
Hipnoterapeuta com formação em 
Hipnoterapia Ericksoniana em
 Phoenix, AZ, em 1992
O site da Clínica de Psiquiatria e Hipnoterapia Sofia Bauer apresenta o estado hipnótico como um transe em que você entra, "como relaxar". Esse processo acontece com o auxílio do terapeuta, que dá orientações referentes à respiração, às sensações corporais e como focar nas emoções, no seu lado interno. Apesar de parecer que é um estado desacordado, o paciente não está dormindo, ao contrário, ele está em um estado de consciência ampliada e participa ativamente. Entretanto, esse estado acordado é sentido de forma diferente, podendo apresentar modificação nas sensações físicas e, por estar com a consciência ampliada, pode perceber emoções e imagens de forma também ampliada.
A proposta é permitir um maior contato com o interior e fazer uma dessensibilização de medos e fobias, além de permitir a imaginação ativa e a regressão. Esse processo permite que o tratamento aconteça de forma mais rápida, e a duração varia de paciente para paciente.
A doutora apresenta alguns sinais que indicam que a pessoa está hipnotizada, como dissociação da mente, catalepsia, analgesia, anestesia, alucinações (que são inclusive estimuladas e um bom fenômeno para se trabalhar com dor, desviando-se do estímulo sinestésicos para um estímulo visual), fenômenos ideomotores, amnésia e hipermnésia e regressão.
Não pude comparecer a esse seminário, de modo que as informações que obtive foram apenas as que foram apresentadas no site .

Psicopatia

Este seminário foi proposto pela aluna Brunna Bartole e por mim, por ser um tema de nosso interesse e que consideramos pertinente à discussão sobre saúde e cuidado. Foi um tema extremamente difícil de pesquisar, por haver uma vasta produção de saberes sobre ele, porém poucas fontes que podemos dizer realmente confiáveis. Os artigos encontrados dizem respeito mais ao diagnóstico, relacionando-se ao DSM-V, apresentando definições, critérios diagnósticos e etiologias.
Compreendemos que o tema se relaciona ao cuidado e à saúde na medida em que há a necessidade de desenvolver melhores possibilidade de lidar com os sujeitos denominados psicopatas/sociopatas, uma vez que a única alternativa apresentada atualmente, está no âmbito jurídico, quando estes se apresentam como infratores e criminosos. É preciso destacar que nem todo psicopata cometerá crimes, e nem todas as pessoas que cometem crimes são psicopatas. Entretanto, é primordialmente no contexto jurídico em que estes são diagnosticados, e o senso comum leva muitas pessoas a compreender que as pessoas que cometem crimes e/ou apresentam alguns dos sintomas apresentados por psicopatas são, de fato, psicopatas (como discutimos no seminário sobre o livro "Mentes Perigosas".

Norman Bates, conhecido personagem fictício de Psycho, do escritor Robert Bloch,
interpretado por Freddie Higmore (Série Bates Motel) e Anthony Perkins (Filme Psicose),
e comumente considerado o psicopata nº 1 do cinema.
Um pensamento comum é achar que a Psicopatia e a Sociopatia são patologias distintas, mas o DSM-V nos indica que a Psicopatia, a Sociopatia e o distúrbio da personalidade antissocial dizem respeito ao mesmo distúrbio de personalidade e Nunes (2009) apresenta brevemente a história do termo "Sociopatia", que foi um apelido criado para o transtorno em função das constantes associações das violações das leis à Psicopatia.
Schneider definiu a Psicopatia como "uma anomalia causadora de sofrimento ao indivíduo e às pessoas em seu torno" (BRATUS apud NUNES, 2009, p.155) e por Gomes e Almeida (2010) como um transtorno de personalidade de conduta antissocial que aparece desde a infância, que tem como principal característica uma alteração de caráter e que entre os sintomas principais estão: incapacidade de sentir amor ou afeição, grande facilidade de utilizar charme e manipulação, incapacidade de aprender com experiências, comportamento impulsivo e boa inteligência. Sua característica fundamental é um padrão de negligência e violação dos direitos dos outros que começa na infância ou no início da adolescência e continua até a vida adulta, além de apresentar características centrais de engano e manipulação. Destaca-se que não não há delírios nesse transtorno.
O diagnóstico apresenta-se especialmente complicado devido às características de charme, engano e manipulação presentes nos sujeitos. Dessa forma, o DSM-V indica que as informações adquiridas na avaliação clínica sejam integradas a informações coletadas em fontes adicionais. O diagnóstico é feito apenas em maiores de 18 anos, e o sujeito deve ter apresentado os sintomas desde os 15 anos. São apresentados sete critérios diagnósticos dos quais o sujeito deve apresentar pelo menos três: 1. Incapacidade de conformação às normas com respeito aos comportamentos legais; 2.Falsidade/engano; 3. Impulsividade ou incapacidade de planejamento; 4. Irritabilidade e agressividade; 5. Desrespeito imprudente à própria segurança e dos demais; 6.Irresponsabilidade consistente e 7. Ausência de remorso.
No seminário, abordamos como esses critérios podem ser interpretados, como eles se apresentam em muitas pessoas que não são psicopatas e como isso se relaciona com a constante generalização do "diagnóstico" de psicopatia que as pessoas dão aos sujeitos em seus convívios.
Uma reflexão que tive durante o seminário é que talvez a questão do cuidado se apresente nesse contexto como necessária às pessoas que convivem ou acreditam conviver com psicopatas. Nós como psicólogos podemos nos aprimorar como profissionais conhecendo o assunto para além do senso comum, tendo maior propriedade para intervir nessas situações.
Ao final, saí com a certeza de que ainda há muito para sabermos sobre o assunto, e que a apresentação de definições, sintomas e critérios diagnósticos não são suficientes para o entendimento da Psicopatia. O seminário reforçou a minha vontade de construir e desconstruir saberes sobre este tema, mas ainda me falta muito conteúdo.

domingo, 18 de outubro de 2015

Musicoterapia

O seminário apresenta a história da musicoterapia e indica que há graduação e pós-graduação na área, nas quais o foco costuma ser mais na Neurologia do que na Psicologia. O campo é apresentado pelo texto de Rosemyriam Cunha e Sheila Volpi, A prática da Musicoterapia em diferentes áreas de atuação, como "um campo da ciência que estuda o ser humano, suas manifestações sonoras e os fenômenos que decorrem da interação entre as pessoas e a música, o som e seus elementos: timbre, altura, intensidade e duração" (p. 86). 
Busca-se, com a musicoterapia, que os participantes de desenvolvam, ampliando suas possibilidades de lidar com a realidade circundante, agindo e interagindo com ela e expressando suas subjetividades, de forma que a música, nesse ambiente, possa ser terapêutica. A atuação é ampla, podendo ser trabalhada na promoção, prevenção e reabilitação da saúde, entendida de forma ampliada.
Pode-se utilizar a musicoterapia na educação, ampliando as possibilidades de aprendizado através da estimulação do desenvolvimento de habilidades cognitivas, motoras, sociais e emocionais. Há, inclusive, uma lei nacional (Lei Nº 11.769, de 18 de agosto de 2008) que determina a música como conteúdo obrigatório do currículo escolar, que até hoje, infelizmente, não é bem aplicada nas escolas.
Na área hospitalar, Cunha e Volpi (2008) mencionam a autora Elizabeth Ribeiro Leão, que acredita que "a música no hospital, mais do que útil, sob o ponto de vista terapêutico, é necessária" (p. 92). Segundo as autoras, a música estimula a expressão de sentimentos e oferece acolhimento e presença, o que contrin=bui para a recuperação dos pacientes. No seminário foram apresentados casos específicos em que a musicoterapia pode ser praticada, mas eu questiono se não deveria ser em qualquer caso, como apresentado no texto indicado, em que é feita com as parturientes.
A prática pode ocorrer também na área social, e como exemplo temos os Meninos de Araçuaí, as Meninas de Sinhá e as mulheres lavadeiras, que musicalizaram suas vivências e, supostamente, sofriam menos a partir disso. O foco principal da musicoterapia nessa área seria prevenir e promover o bem estar e a saúde, tornando a vivência do cotidiano mais prazerosa e gratificante.
Toda a prática parece extremamente interessante, e no que se refere à mim, ainda mais atraente e difícil, devido à minha relação atual com música. Entretanto, apesar de o texto afirmar que existem princípios teóricos que fundamentam a prática, a pergunta "como funciona?" continua sem resposta para mim, uma vez que parece a maioria dos que praticam a musicoterapia de forma eficiente não são formados, nem têm conhecimento dos princípios teóricos que afirma-se existir para a prática.

Atendimento Psicológico Online

O texto proposto pelo grupo (O Atendimento Psicológico Online: aspectos éticos do uso da internet - Juliene Anton, 2013) aponta com clareza que o atendimento online realizado por psicólogos "não deve ser um atendimento terapêutico, não sendo capaz de oferecer 'cura' ou melhora para psicopatologias, mas sim um trabalho de orientação.
Ao pesquisar sites de atendimento psicológico online, é possível encontrar descrições do trabalho que corroboram com a afirmação da autora. O atendimento é chamado de "orientação online" e aponta como obejetivos "dar suporte emocional, promover acolhimento e orientação sobre questões que estejam angustiando aqueles que nos procuram, com a facilidade de estar acessível e ao alcance de um computador" (PAVAN e SEGAL). As psicólogas destacam que "essa modalidade de atendimento apresenta um objetivo diferente da psicoterapia presencial. Trata-se de uma ferramenta de trabalho que é focada em queixas específicas. Não substitui a psicoterapia presencial [...]".
As vantagens dessa modalidade de atendimento são claras: acessibilidade, maior conforto, evita gastos de tempo e financeiros com deslocamento, além da diminuição de custos para o profissional.
Fica claro que não existe consenso sobre o assunto entre os profissionais, assim como não houve consenso no momento do seminário, entre os participantes. Apontou-se a preocupação em relação ao setting, ao sigilo, à ética e à eficacia, comparando-se estes pontos em relação à psicoterapia presencial. Foi pesquisada em sala a resolução do CFP que regulariza a prática, na qual é determinado o que é e não é permitido, inclusive indica que não é permitido curar psicopatologias. Apontamos que a ética do profissional deve ser a mesma tanto no consultório físico quanto nos atendimentos online, que o contrato entre o profissional e o cliente deve ser estabelecido independentemente da modalidade de atendimento e que este deverá conter as características do atendimento, inclusive do setting.
Acredito que um bom fechamento para esse debate tenha sido o que falou a Kind, que é preciso pensar "o quanto a gente demoniza e o quanto a gente aproveita", e que devemos evitar posicionamentos polarizados e precoces.

Psicologia, marketing, cores*


"Little boxes on the hillside
Little boxes made of ticky tacky
Little boxes on the hillside
Little boxes all the same
There's a pink one and a green one
And a blue one and a yellow one
And they're all made out of ticky tacky
And they all look just the same"
                                        Malvina Reynolds
"As cores constituem estímulos psicológicos para a sensibilidade humana, influindo no indivíduo, para gostar ou não de algo, para negar ou afirmar, para se abster ou agir. Muitas preferências sobre as cores se baseiam em associações ou experiências agradáveis tidas no passado, e portanto, torna-se difícil mudar a preferência sobre as mesmas" (SANTOS, 2000, p. 10)
O uso da cor está relacionado aos costumes sociais, e a cor está diretamente ligada ao consumo. "Cientificamente, nada comprova a existência de um processo fisiológico que explique o porquê dessa reação física do homem à estimulação de cor" (p. 7), entretanto, podemos notar no dia-a-dia como as cores nos afetam e que agem em nós, apesar de não sabermos exatamente como. 
O Marketing então se utilizaria dessas preferências, e dos comportamentos de compra e consumo, para chamar atenção dos clientes potenciais. A empatia (colocar-se no lugar do outro) é uma ferramenta de grande importância para que o marketing funcione.
É interessante como que necessidade e desejo passam a ser vistos tão próximos, e com as chamadas "jogadas de marketing", parece não existir diferença entre um e outro, a necessidade é criada. Os profissionais de publicidade usam de conceitos psicológicos para despertarem o desejo de compra nos consumidores.
A "Psicologia das cores", por mais incongruente que possa parecer, é estudada muito mais por pessoas da área da comunicação do que da Psicologia, que fazem uso dela para vender produtos, imagens, etc. Existe, realmente, um campo científico chamado "Psicologia das cores"? Fica essa pergunta, juntamente com: "qual a posição da Psicologia em relação ao tema?" e "como podemos estudá-lo, utilizá-lo em nossas práticas?" 

*Foi particularmente difícil ler e participar do seminário em sala sobre o assunto, por ser extremamente delicado para mim nesse momento da vida, de forma que o estudo do tema foi mais permeado por questões subjetivas do que cognitivas.